Se você é uma pessoa LGBTQIA+ e ainda crê, mesmo que com dúvidas, mesmo que entre escombros, saiba: você é um milagre de resistência espiritual. Porque manter a fé depois de ter o coração ferido por quem dizia falar em nome de Deus é, por si só, uma ousadia divina.
Com mais de 20 anos dedicado a escuta e acompanhamento pastoral de pessoas LGBTQA+ ouvi muitas histórias que retratam com intensidade a realidade conhecido por muitas pessoas: A da fé sequestrada por um discurso religioso que transforma espiritualidade em vigilância, amor em aprovação condicional, e Deus em um algoz invisível que observa cada gesto com desconfiança. O “Deus que nunca te aprova” como notado é uma construção que dilacera a alma, adoecendo emocionalmente com culpa constante, medo paralisante e anulação da individualidade.
Essa experiência de religiosidade tóxica atua como trauma espiritual. Ela molda o psiquismo pela via do controle e da punição. Forma mentes aprisionadas por uma lógica sacrificial onde amar, desejar, dançar, expressar-se — especialmente se você for LGBTQIA+ — se torna pecado. A fé, que deveria ser espaço de encontro e liberdade, vira um campo de batalha interno. Isso não é exagero: é uma ferida coletiva.
II. Reinterpretação Teológica: Desconstruindo o deus do castigo
Contra essa imagem perversa de divindade que adoece, é preciso anunciar com coragem e ternura: esse não é o Deus de Jesus. Esse não é o Deus da inclusão radical, o Deus encarnado nos corpos e histórias marginalizadas, o Deus que se faz presente no Espírito que sopra onde quer — inclusive nos corpos trans, nas sexualidades dissidentes, nas famílias não normativas e nos afetos que desafiam o moralismo.
A tradição da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM) nos lembra: Deus não é o juiz distante das doutrinas dogmáticas, mas o companheiro da estrada que caminha conosco, mesmo quando as igrejas nos expulsam. Em Jesus, vemos um Deus que rompe com os legalismos, cura nos dias errados, acolhe os rejeitados, e confronta diretamente os religiosos que “amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros” (Mateus 23:4).
A teologia queer nos ajuda a dizer com firmeza: Deus não está contra nós — está conosco. Em cada gesto de autoaceitação, em cada beijo que desafia o moralismo, em cada corpo que resiste à normatividade, o Espírito Santo dança.
III. Afirmação da Identidade Sagrada: Você é imagem de Deus
Não há contradição entre ser LGBTQIA+ e ser imagem e semelhança de Deus. O que há é uma profunda revelação: nossa existência dissidente é expressão encarnada da criatividade divina.
A escuta pastoral afirmativa reconhece que a reintegração da autoestima espiritual passa por reimaginar a divindade e reformular a narrativa sobre si. Nesse processo, ouvir que “você é amado exatamente como é” não é apenas terapêutico — é salvífico.
A fé inclusiva/afirmativa é, muitas vezes, uma fé arrancada do entulho. Uma fé que sobrevive aos escombros da exclusão. É uma espiritualidade que se reconstrói com os cacos das Bíblias usadas como armas, e que transforma esses cacos em vitrais de resistência e beleza. É por isso que se você ainda tem fé, você é um milagre.
IV. Processo de Cura: Da culpa ao cuidado espiritual
A cura espiritual de pessoas LGBTQIA+ que sofreram traumas religiosos é um processo profundo, contínuo e comunitário. Não se trata de esquecer a dor, mas de dar novo significado a ela.
Primeiro, é necessário reconhecer o abuso espiritual. Identificar as narrativas manipuladoras que impuseram culpa, vergonha e medo. Depois, construir uma espiritualidade que nutra a vida, e não que a sufoque.
Espiritualidade saudável não exige perfeição, mas promove reconciliação consigo, com os outros e com o sagrado. Ela é espaço de afeto, de pertença e de celebração da diversidade. É possível — e necessário — reaprender a orar com confiança, a cantar sem medo, a celebrar sem culpa. A cura se dá quando descobrimos que Deus não se ofende com nossa verdade — Deus se revela nela.
V. Chamado Profético: Sua existência é testemunho
Ter fé e ser LGBTQIA+ não é apenas uma questão pessoal — é um ato público de resistência teológica. É uma denúncia viva contra as estruturas que dizem que espiritualidade e diversidade são incompatíveis. Você, pessoa LGBTQIA+ com fé, é uma profecia encarnada.
Sua existência desmascara os ídolos do legalismo religioso. Sua alegria é subversão contra o controle moral. Seu amor é antídoto contra a teologia do medo. Sua presença em espaços espirituais, mesmo que apenas em memória ou desejo, é um sinal de que o Reino de Deus não cabe nos muros da normatividade.
Conclusão: Fé que cura, Deus que abraça
A religião pode ter ferido, mas Deus não abandona. Há igrejas que excluem, mas há comunidades que acolhem. Há teologias que condenam, mas há espiritualidades que libertam.
Se você está em processo de cura, caminhe com paciência. Se você ainda crê, mesmo que com dúvidas, confie: isso já é fé. E se você ousa amar, esperar, resistir — saiba que você está sendo conduzido por um Espírito que sopra vida, não culpa. Liberdade, não controle. Graça, não julgamento.
Você é um milagre. E Deus continua amando deliciosamente através da sua existência.
Rev. Christiano Valério
Teólogo, ativista, clérigo das Igrejas da Comunidade Metropolitana desde 2008, membro da Equipe Internacional de Desenvolvimento Comunitário da FUICM – Fraternidade Universal das Igrejas da Comunidade Metropolitana.
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